Keane - Neon River
Participo como ouvinte de um grupo de viciados, corro diariamente com deficientes, escrevo uma coluna de comédia para apáticos, discurso em convenções sobre mudez, dirijo um protótipo de carro sem motor, leio as últimas notícias para idosos com Alzheimer.
Comprei um ticket velho de um show que já passou, fico diante de um lugar que não mais existe, me pergunto o que sei e não sei responder, conheço pessoas rasas e finjo interesse, disfarço aquilo que mais me chama atenção, me calo quando quero falar, falo quando não devo.
De um jeito torpe saboto uma guerra interna, troco bens que não me pertencem, peço desculpas por erros dos outros, imagino situações como exercício, levanto um peso leve e pareço fraco, sem choro ninguém acredita no meu coração, tudo bem.
Apago um texto ainda não escrito, invento um mundo sem dor, posiciono livros em ordem discográfica, faço top todos, nem sei mais o que quis dizer numa discussão.
Nado à braçadas pelas areias de Fortaleza, sinto os ventos aracatis sem amor à praia, confesso pecados à alheios, os padres que lutem, isolo um fio com mais cobre, ando pela orla detestando as ondas, ponho sal em sorvete, açúcar em camarão.
Faço isso tudo sem propósito, que não me busquem ajuda, que não me amem.
Nunca vai voltar mesmo.
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