domingo, 30 de agosto de 2020

Contrários

Keane - Neon River


Participo como ouvinte de um grupo de viciados, corro diariamente com deficientes, escrevo uma coluna de comédia para apáticos, discurso em convenções sobre mudez, dirijo um protótipo de carro sem motor, leio as últimas notícias para idosos com Alzheimer.

Comprei um ticket velho de um show que já passou, fico diante de um lugar que não mais existe, me pergunto o que sei e não sei responder, conheço pessoas rasas e finjo interesse, disfarço aquilo que mais me chama atenção, me calo quando quero falar, falo quando não devo.

De um jeito torpe saboto uma guerra interna, troco bens que não me pertencem, peço desculpas por erros dos outros, imagino situações como exercício, levanto um peso leve e pareço fraco, sem choro  ninguém acredita no meu coração, tudo bem.

Apago um texto ainda não escrito, invento um mundo sem dor, posiciono livros em ordem discográfica, faço top todos, nem sei mais o que quis dizer numa discussão. 

Nado à braçadas pelas areias de Fortaleza, sinto os ventos aracatis sem amor à praia, confesso pecados à alheios, os padres que lutem, isolo um fio com mais cobre, ando pela orla detestando as ondas, ponho sal em sorvete, açúcar em camarão.

Faço isso tudo sem propósito, que não me busquem ajuda, que não me amem.

Nunca vai voltar mesmo.


quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Luisa

 Luísa - Um Beijo


A gente tinha o costume de dizer que seriamos namorados, um dia, coisa de criança na quarta série.

Sentávamos lá em cima na escada, escondidos dos professores e olhares dos amigos, até andávamos de mãos dadas, mas não podíamos nos beijar, beijo era coisa de adulto.

Chegamos na sétima série e descobrimos uma salinha que no recreio ficava aberta, onde rolavam as aulas de inglês, foi quando esse namoro infantil acabou rapidinho.

Ficávamos de olhos fechados e aleatoriamente escolhíamos alguém dentre as meninas pra beijar.

Por algum motivo, algo que eu nunca esperei, a ordem das meninas mudou e eu acabei beijando você.

Acho que a primeira vez foi estranho.  Eu era um palmo menor, então eu quem ficava sentado na mesinha do sala.

Aposto que se assustou tanto quanto eu. Ninguém sabia o que aquilo significava, mas nunca foi só um beijo.

E só depois de alguns anos percebi o que aquilo significou e o que poderia ter sido se a gente tivesse entendido. Gostamos tanto de nos beijar, que um selinho sem culpa virou um beijo de gente grande com direito à alguns sorrisos e selinhos antes afastarmos nossas bocas.

Repetimos aquela brincadeira algumas vezes ignorando o óbvio. No futuro isso ia ser lembrança ou saudade.

O nosso beijo foi curto demais pra entender e longo demais pra esquecer.



quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Meio dia e meia e você

Como de costume, meio dia e meia deitei e botei minhas amarguras em evidência.

Ali, de olhos fechados, o sono me pegou.

Quando dei por mim, estava em paralelo, visitando uma mera possibilidade.

De vestido preto curto, ela esperava de costas ao pé da macieira.

Distraído eu vinha pela esquina e dei com o coração apertado numa ponta de faca.

Meus pés perderam o chão, minhas mãos gelaram, meu corpo foi parar longe de mim.

Ela virou e, sem dizer nada, abriu os braços pra um abraço.

Encaixou, eu sorri em seu pescoço, nada foi dito.

Me afastei e ela disfarçou ao telefone com alguém.

Dois minutos depois acordei e eram duas horas.



domingo, 2 de agosto de 2020

Nada mudou

Algumas noites atrás eu tive um sonho
em que achei ter encontrado você.
Era surreal, achei que era real, até te ver chorando pra mim, ao telefone, um adeus.
 
Foi ai então que o véu rasgou e fui parar longe daqui.
Onde nada mudou, não posso fingir.

Construí um lugar cheio de histórias.
Paredes, memórias, lembranças pra mim.
Custava entender que tudo aquilo era medo,
Custava entender que eu amava você?

Um castelo, uma cidade, um herói, uma saudade.
Nada mudou, não quero fingir.
Um desejo, um sonho e a cor dos seus cabelos.
Te vi ali, mas não era real.








Relato

Hoje o céu tá um tanto cinza. Fortaleza tem esses dias; é uma forma de lembrar que por aqui temos muita saudade. Fico me perguntando se apro...