terça-feira, 23 de junho de 2026

Capítulo 1: Mais perto do chão que o piso

Alagado e podre estava o bosque ao sul de Mainas. Se minhas botas não fossem resistentes ao fogo, talvez servissem para atravessar sem deixar meus pés ensopados. Em passo lento e esforçado, a chuva só piorava o caminho. Um latoeiro como eu sempre era bem-quisto em pequenos vilarejos. Somos úteis como bardos, de boa conversa como bardos, espertos como bardos e não tão chatos e exigentes como bardos, mas mentíamos igualmente como bardos.

Eu trazia histórias de tudo que tinha dentro das bolsas de couro. Histórias para todo tipo de pessoa, principalmente os devotos. Ah, os devotos eram os mais ávidos ouvintes. Acho que, de tantos dogmas e literatura divina, sentiam falta daquela fagulha épica dos aventureiros, dos viajantes e das mulheres.

Eu, particularmente, quando percebia um devoto, apimentava os decotes, descrevia com detalhes os detalhes, e eles saíam quase sempre praguejando que eu era um tarado, exatamente como eles, porém de toga e enjaulados. Bando de virgens vis e hipócritas.

As luzes da capital estavam a cerca de duas horas de caminhada, e eu precisava bolar uma boa desculpa para ter perdido o pônei de Bohan. Explicar que eu havia apostado seu único cruzador com um dos Valrheis era imperdoável, mesmo por uma boa causa. Os Valrheis valorizam os quadrúpedes mais que suas escravas, e eu amo uma escrava, principalmente quando posso usufruir de seus serviços em várias esferas. Essa que eu trazia comigo era especialmente útil. Além de consideravelmente bela para uma elfa, não sabia falar, o que era magnífico.

A capital do reino se chamava Armada. Um nome curioso para uma capital, porém o falecido rei Non, por um decreto após a expansão e conquista do território dos anões de Mainas, construiu um belo e imponente forte. Ali, onde centenas de anões e homens derramaram sangue por, aparentemente, razão alguma, Non morou por seis anos, até que Armada fosse erguida e seus dias fossem encerrados. Dizem que ele foi envenenado, mas eu duvido. Non era desconfiado demais para um envenenamento. Era mais plausível a minha teoria: Non estava velho e cansado e faleceu definhando em sua cama, sofrendo com dores horríveis causadas pela peste anã.

Non era ambicioso e destemido. Provavelmente contraiu a peste explorando, sem precaução, os túneis labirínticos cheios de gases que os anões de Mainas usavam para transportar seus minerais comburentes, em busca de riquezas e pedras preciosas, ou qualquer sorte de segredo que os anões guardavam ali.





sexta-feira, 8 de maio de 2026

Minha criança

Desculpa, tá, eu gosto de exagerar que sofri um absurdo descabido por anos seguidos e que isso causou um torturante caminho de noites sem fim, escrevendo textos torcidos a sangue, mas num foi muito assim. Sim, eu fiquei um bocado triste, o tanto que meu corpo aguentou ser bobo, mas tive dias também e dias bons. Foram esses que me trouxeram de volta, os que eu sorri alucinadamente e que no meio de tantas passagens que escrevi sem seu nome, percebi a passagem da vida com um total completo sentido sem você. Era como se meu eu de ontem estivesse aqui do lado implorando pra não deixar o desejo dele morrer, me lembrando do que jurou, do que ouviu, do que chorou. E nos dias em que esquecia dele, vinha por aqui e deixava ele falar, afinal somos um pouco um do outro e tenho medo dele não ter orgulho de quem eu virei deixando de lado muitos dos pedidos que sempre me fez. 
Ele tem orgulho sim, a minha criança me ama desesperadamente, na intensidade que eu mereço, com o cuidado que mereço.  A minha criança hoje me deixou seguir, hoje ela deve ter ficado lá atrás com você, ainda bem, eu não me perdoaria por prendê-lo comigo. 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Relato

Hoje o céu tá um tanto cinza. Fortaleza tem esses dias; é uma forma da cidade lembrar que por aqui temos muita saudade. Fico me perguntando se aproveitamos tudo mesmo, se hoje é realmente memorável, se realmente fazem 30 anos desde os 1990 e tantos, se tudo vai ficar bem e se era isso mesmo que seria no futuro.

É incrível olhar pra fora, ver aquelas nuvens gigantonas, mas não poder ir até alguns lugares que não existem mais. Às vezes paro onde ficavam e contemplo minhas memórias, que tenho dificuldade de compartilhar, pois doem um pouco.

Como que, de repente, vivemos tanto em tão pouco tempo? Como que eu não tenho mais fotos aos 17 de cabelão? Por que não tenho encontros anuais com amigos do colégio? Quando eu virei esse estranho  que é conhecido de todos? Uma ponte em falso, hoje já sem muitas tábuas, de difícil passagem, de difícil encontro.

Só queria ter por perto umas pouquinhas pessoas lá de trás e que não fosse tão complicado resolver isso.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Rindo da Saudade

Acordei rindo da saudade, rindo dos nossos trechinhos estreitos, sorrindo abobalhado do ordinário. Despertei de alma satisfeita, com o espírito sossegado, desejando o real apego, a certeza, o café e a nossa mesa. Levantei descansado, visitando os cômodos cheios da casa, cheirando minha alegria morena nas primeiras horas do dia.

Acredito que nem tudo pode ser explicado por palavras; tenho, inclusive, dúvida se certas coisas podem sequer ser explicadas. Digo isso porque me parece que a vida passageira mete a gente em cada surpresa, meu amigo. Há uma hora em que somos melhores amigos e, no súbito segundo sequente, somos os piores problemas.

Aposto que, se estivéssemos sentados, um diante do outro, seria praticamente impossível um escolher ir e deixar o outro ali, sem saber como segurar as pontas. É fácil fazer estando a 3.760 km, é fácil deixar de espiar, é fácil, é fácil — e eu repito — até o fácil deixar de me incomodar.

Naquela tarde vazia, você me ligou e me fez o dia. Agora, pela janela, só vejo fumaça e pessoas.




terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Lar às Estrelas

Era de se esperar que, cedo ou tarde, iríamos enfrentar outro hiato, o que já era comum dadas as circunstâncias. Os laços, a inocência e a mera sugestão de afeto tornavam nossos rounds em crises sem pretexto, comigo de participante constante de tempos em tempos, quando realmente começo a crer que o melhor é o completo afastamento pra ver se preservamos uma bela amizade, daquelas que acreditamos ser fundamental no verdadeiro sentido do amor. Entretanto, ainda fico, apesar do tempo, pesando o tempo, a distância, porém não deveria. Me conforta o engano de que estás a sentir falta. Talvez seja eu um telegrama, conversando feito maluco por aqui sozinho, na torcida maluca de que essa estrada ainda ligue o Mar ao Porto, o Lar às Estrelas.

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Absolutatamente

Às vezes acho que escrevo tanta bobagem, sabia?
É que eu vou relendo e vejo o quanto tentei ser meio sabichão.
Eu meio que tento descrever alguma emoção que estou sentindo na hora, daí misturo com alguma coisa que aconteceu entre eu e alguém, então tudo fica muito confuso — até pra mim, quando preciso revisar.
Chego a conclusão, mesmo, que eu ainda não tenho a cabeça no lugar, ou pelo menos não consigo organizar as ideias dessas emoções da maneira mais adequada.
Fica parecendo que não estou sendo sincero, fica parecendo que eu quero me exibir, quando na verdade eu até poderia ser mais direto, como tô sendo hoje, mas dá receio de ser transparente demais e acabar com a magia das coisas.

Hoje eu queria dizer uma pá sobre esse processo da mudança — esses dias organizando o que vem primeiro, um sofá extra ou um rack de TV — têm me batido uma ansiedade. Queria poder receber um pedido de desculpas e tentar acertar as coisas, ou até mesmo pedir essas desculpas, mas não vem ao caso, e eu ainda estou muito mal por saber que algumas palavras ditas ainda me deixaram magoado — logo eu, que perdoo todo mundo por todo lado.

É isso. Sábado é dia de casa nova, uma casa que tem sido um desafio construir, acompanhar, esperar e morar. Vizinhos reclamam de mudanças, outros precisam consertar vazamentos... Nisso, vamos contornando, os meninos esperando e, aos poucos, o tempo vai passando.

Ainda preciso finalizar algumas demandas do trabalho, viajar a trabalho, graduar dois amigos, receber uma moto, enfim. Sinto que, nesse tom que redigi hoje, posso ser menos julgado e, ao mesmo tempo, mais entendido. Faz sentido?

sem receita.

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

Outubro Rosa

"Nem posso dizer que me deixei enganar, pois sinto, de coração, que sou um experimento de longo prazo."

A essa altura, virei sua última chance de ostentar algumas coisas, a começar por lembrar como viver era emocionante antes de tantas responsabilidades, de tantos reveses, reservas; afinal, para atestar certas decisões, dizem que precisamos revisitar os turning points — e é o que sou: um coração de laboratório.

Enquanto trocamos mensagens curiosas, amistosas demais para disfarçar, percebemos que surtimos um efeito diferente um no outro, onde nem sequer te tenho à vista, não ouço o que diz, não recebo chamadas, mas faz todo sentido, porque eu sinto e faz sentido. Me deixa.

Faço disso, hoje, um divã sem análise, em que não calo palavra alguma das que me lembro. Se esse caso tivesse solução, mudaria, mas ouço a verdade que diz com jeitinho para não machucar. É que me chama e me pergunta sobre a vida, porém se engana achando que não me esqueceu, que o seu amor ainda faria sentido ser eu.

Talvez eu tivesse razão e você errada, mas me consolo no disfarce ao acreditar que outro te faz feliz, até ver seus olhos nas fotos — e são os olhos, Chico, eles não mentem, eles não mentem.

Eu vou brincar com meu filho, ligar para o meu velho, vou priorizar na agenda um exercício, sem televisão.
Hoje vou comer menos carboidratos, mais verduras, almoçar devagar, sem internet, sem estresse.

Hoje, pois só tenho hoje: aqui, agora, o já. Vou ouvir as pessoas voltando a sorrir e, ao redor, a catarse de dormir e acordar na minha casa, sem brigar por tolices, praticando o perdão, alegre e satisfeito de ver o que é meu, bem direitinho, pedindo a Deus que nos conserve assim, nos amando sem dizer.

sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Entre Olhos Verdes e Despedidas

Nossa história foi tão abobalhada, tão breve. Acho que foi nela que perdi a vontade de fazer tudo certo e comecei a me deixar enganar, a enganar e, principalmente, a fingir bem — muito bem.
Não se importar é um atrevimento tão absurdo que, respondendo à sua última pergunta: sim, eu mudei levemente quando voltei. Mudei um mínimo, mas nunca imaginei que nosso amor fosse tão delicado a ponto de quebrar com o que trouxe na volta: um pouco de vaidade, um pouco de nariz empinado — coisa normal na adolescência. Ainda assim, eu continuava abobalhado pelos seus olhos verdes, pela sua gargalhada mágica e por esse jeito único de me fazer sentir um príncipe entre os plebeus.

É... e você nunca acreditou em mim. Nunca.

Fui até você todas as vezes que chamou, incerto e vulnerável. Nem contei os passos. Gastei meus milagres só para te ver, e vi você aos beijos com outros em viradas de ano. Ouvi pessoas que eu desprezava falarem da sua beleza. E a espera me trouxe até o dia em que ouvi, ao telefone, um “eu te amo” tão sincero que rasgou meu coração ao meio, mesmo depois desse tempo todo. Aquilo foi o asilo do meu fracasso como memória. Não era só póstumo, era uma grande farsa — uma grande bosta.

Pensar que hoje sobrevivi é como engasgar com o abjeto: um nó seco, um choro preso, um arrepio sombrio, uma raiva estúpida e sem sentido. Não te perdoo. Apenas finjo e sorrio altivamente, de orelha a orelha, porque não fui eu o covarde. Não fui eu. Eu suportei dias a fio, revivi lembranças, escrevi cada lágrima seca e todas as juras secretas. 

Eu vivi as dores, o luto e a falsa esperança em todas as vezes que olhei no fundo dos teus olhos e voltei a ter 15 anos: um menino prodígio, um superdotado cheio de sonhos inocentes, perdido de amor por alguém que deixou pra dizer o que precisava quando já não era mais hora.



segunda-feira, 11 de agosto de 2025

É um problema meu

Era um drama do caralho — e, quase sempre, um de nós saía com o nariz torcido, um textão entalado na garganta, acumulando um desprezo que, de tão amargo, parecia ter algum valor. Nem falo do orgulho… esse, de longe, foi o maior motivo para tudo ter chegado aqui. Era como uma “dramanina” viciante — eu repetia a mesma merda porque não sabia dizer que te amava. Ou será que, naquele jeito torto, aquilo já era eu dizendo… e sem saber processar?

E que fim sem fim… muito pior do que imaginei. Não sei em que momento começou, nem quando deixei meu ego inflamado dobrar mais uma esquina e cair nessa armadilha. De cá, tento não deixar mais nada disso me consumir. Não sou um arremate malfeito. Não há caminho de volta sem despedaçar tudo. Não cimentei direito… meus muros ainda estão molhados, frágeis, inseguros.

E você, cheia de planos absurdos, mudanças que não entendo, e mais centrada em si do que nunca — mais até do que o seu normal, que já era vasto demais para eu conseguir entrar. Antes era difícil… agora é um abismo.

Para de tentar descobrir como voltar a ser como antes. Amizade não sobrevive a tanto nojo, medo, desconfiança e verdade. Você teme a verdade, teme assumir sua parte no problema… e sua parte no amor.

Então me deixa, certo?
A gente não faz sentido — nem como amigos, nem como colegas, quiçá conhecidos. E, desta vez, quando me perguntarem sobre você, vou responder com a minha verdade mais honesta:

— É um problema meu.

terça-feira, 10 de junho de 2025

39 coisas

Parabéns, Invisível. Mais um ano se passou com a ajuda de dipironas, antialérgicos e corticóides, três cirurgias, hábitos nada saudáveis… Consegui uma faixa preta, mas perdi muito tempo, confei demais, me perdi em meus desejos, afastei pessoas importantes, fiquei meses sem cortar o cabelo, adoro perfumes e ao mesmo tempo os detesto. Ainda assim, esses anos passaram e eu não consegui retardar uma cena, memorizar perfeitamente uma frase, entender claramente uma explicação. Não consegui esperar respostas, contatos, desabafos e comemorações. Nem esquecer alguns dos seus beijos, cheiros e amigos.

Os 39 passaram rápido e chegaram em boa hora, afinal, lembro e agradeço pelos amores que quis e consegui, todos, pelos desafetos que conquistei e que não fiz absolutamente nada para remediar. Pelos tantos pesares que fiz questão de superar e pelos sorrisos bobos que arranco com poucas palavras. Estive no “spotlight” por tempo suficiente — e isso é absurdamente incoerente, visto que sou tímido, pretensioso e chato, em ordens aleatórias, a depender da pessoa.

Se puder viver o triplo será uma maravilha. Que Deus continue me abençoando e que esse meu caminho inspire meus filhos a viverem suas aventuras, amarem, perderem, criarem e voltarem.

Eu? Estou aqui. Ainda.



segunda-feira, 26 de maio de 2025

Confissões

Tive pouco menos de dez minutos para confessar. Assim que entramos no carro, tentei ser o mais direto possível — e, ainda assim, dei cento e oitenta e duas voltas para dizer a coisa mais simples e honesta de todas: “Desculpa.”
Mesmo agora, escrevendo, é difícil imaginar a cena: o nó na garganta, a angústia, a trava mágica e perigosa que existia em admitir que fui derrotado pelo amor.

Em seguida, comecei tentando explicar de onde aquilo tudo havia surgido — e, claro, eu não fazia ideia de por onde começar. Tinha sido em 2010? 2009? Quando você me deu um tapa? Ou na vez em que despertou minha curiosidade pela sua vida íntima?
Aposto que, se você fosse só mais uma qualquer, eu conseguiria dizer um monte de bobagens sem sentido, daquelas que te deixariam sorrindo e pronta para um beijo.
Mas agora eu... impotente, preso a esse sentimento, estou entregue às mazelas do desespero eterno que é te amar sem poder — e sem puder.

Nessa explicação perdida e tosca, você respirou fundo, desceu do carro e guardou segredo.
Nossa relação ainda é a mesma? Ainda é coisa nenhuma? Será que vou te encontrar bêbada por aí e ganhar um beijo de consolação?
Me diz.

Capítulo 1: Mais perto do chão que o piso

Alagado e podre estava o bosque ao sul de Mainas. Se minhas botas não fossem resistentes ao fogo, talvez servissem para atravessar sem deixa...