quinta-feira, 3 de abril de 2025

Em resposta ao seu desdém

Vinha sumido há três semanas quase de propósito. Perguntavam se estava tudo bem e estava. De fato estava, mas o mistério que o desapego provoca torna tudo menos simples.

Sim, isso não muda o fato de que as coisas, em geral, não estavam como eu gostaria. Falta-me um pouco de dinheiro para concluir planos breves, enquanto me sobram muitos planos. Também carrego uma dor latejante no joelho e no pescoço. Meus colegas de trabalho parecem sintonizados em uma frequência AM: falam pouco e com muita distorção, deixando claro seu desinteresse em merecer melhores adjetivos. Talvez por isso eu não saiba lidar com a obrigação de ter alguns — mas que se dane.

E, se você quer saber, não, não esperei os convidados irem embora. A catarse veio travando minha voz e fui impelido a correr até o mural de balões coloridos. Com um palitinho de dentes lavei minha alma de criança, espocando um a um como se fossem frases metralhadas de tudo que quis dizer e nunca pude.

O fim é um covarde, dos maiores. Não deixa recado, não pede permissão, não prepara e não me espera.

 


quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

Nunca esfria

 E paramos de nos falar.

Curioso como, de certa forma, naquele momento nada mudou realmente. 

As semanas assobiavam seu nome, mas estava inerte para o tempo e reflexões. Estava sob controle do orgulho.

Andei achando que estava certo, com razão e confiante de, ah que se exploda. 

Os dias fingiam que passavam e eu fingia que acreditava nas minhas capacidades de viver das 18h as 00h sem falar com você ao telefone. Ficou aquela lacuna de silencio, até que eu comecei a abafar gritos e porquês no travesseiro. 

Queria voltar atras, mas a decisão parecia ser tão poderosa, que ficou claro que aquilo era uma Providência. Era impossível lutar contra, pesava na garganta e o que eram dias viraram semanas, meses e eu perdi o tato, o olfato, você de vista.

Quando percebi eram outros que contavam sobre você, eram outros que te beijavam e eu vi, revi, reli, refiz.

Risquei com violência minhas promessas, me despedi de uma porção de pedaços de personalidade que detestava, ardeu demais deixar você seguir, te ver seguindo e te ver sorrindo diferente, gargalhando de histórias que não as minhas. Egoísta que fui em pedir, egoísta que fui em perseguir, que fui em dormir. 


Nada pode nos separar da forma que deveria. O tempo tem sido o regente do amor; aproxima quando quer aquecer e afasta quando quer amornar, mas nunca esfria. 


quarta-feira, 9 de outubro de 2024

Morto de culpa

"Que nome dar para um amor que tantas vezes se perdeu em não ser mais possível..."


A pior parte é forçar um sorriso sempre que vou contar a alguém como costumávamos ser uma certeza e que num sopro, em uma noite tosca, nos tornamos cuidadosos demais com nossos corações.

Se tornou conveniente, da minha parte, ser raso e indiferente, mas só o fato de que quando te respondo escrevo demais, diz o contrário e me desconforta, me engano toda vez. 

Quem está por aí acredita que sou simples, fácil de ler, entender, que sou um grãozinho de farinha igual aos demais. E eu acredito que um dia vens me buscar, me recolher, me perdoar. Ledo engano. 

Torcendo a realidade em dramas e hipnotizando com milhares de histórias inventadas, que bem pode haver em distorcer as notas do silêncio que sempre desejei e que agora não fazem nenhum sentido. 

E o amor que um dia senti por você está agora, até onde sei, morto de culpa.





segunda-feira, 3 de junho de 2024

Ferida

Escapei de tudo que acabei. Apesar de ferido, precisei sufocar gemidos e nisso fui atingido no peito. Fui levado a crer que tendo tristezas estaria a viver por amor, e o coração, sem solução, nada mudou.

Fingindo surtos, o alvo perfeito, domesticado e esquecido dos riscos, fui me deixando ir por você.

E dos soltos passos, livre, sozinho, tropecei em caminhos e em abrigos, em amigos. Instinto puro, decidido, me enganando, vencendo e vivendo. Flores existiram, mas quem resiste a tantos vendavais?

As cicatrizes ainda falam, em poucas palavras, o que nunca calei. 


domingo, 5 de maio de 2024

Lembrar?

Juntando tudo que fazia sentido, provavelmente menos de uma caixinha daquelas de armarinho conseguiria encher. Restaram alguns cadernos, provas com notas baixas, desenhos e rabiscos, trechos de músicas, o telefone de uns amigos, fotografias..

É, foram momentos inesquecíveis, cada um a sua maneira. Da primeira a última lembrança, posso dizer com confiança, que nada foi simples como tenho na memória. 

Algumas emoções deixaram apenas vestígios, dos quais preciso me esforçar para trazer a tona, enquanto outras me aborrecem quando menos espero, me despertam quando mais tenho sono. 

Quem dera tivesse certeza, naquele tempo, de certas palavras, ou até soubesse o que não deveria ter dito. O passado é, curiosamente, sempre maldito. É lá que vivem nossos arrependimentos, mágoas e maiores medos, mas também é pra onde, as vezes, queremos visitar e se pudéssemos correríamos como um filho perdido corre chorando aos braços dos pais.

Deixei companheiros, amores, gestos e desculpas. Deixei uma versão complicada pra entender hoje, um protótipo tosco e perdido. Deixei uma conversa não acabada, um perdão de lado, prato na pia por lavar, uma camisa de tricô, um pedido, um aviso, deixei tanta coisa que hoje Deus curou, mas não deixo de lembrar. 

Porque será que nunca deixo de lembrar? 


quarta-feira, 19 de julho de 2023

Será que perdi?

Fui deixando uma música inacabada aqui, 
um texto no rascunho ali e sumi. Me desfiz na vida, mas será que perdi?
Deixei tudo ser como deveria.
Livrei sua alma do medo, da dúvida e parti.
Outros podem pensar o contrário, espalhar o contrário, mas foi assim. 
Diante do nosso monumento da paixão, uma pilha de lembranças podres, 
confundi as coisas, o tempo, tornei tudo complicado, tudo bagunçado. 
E no domingo, quando tudo parecia ter acabado, da janela eu chamei baixinho por você.
A rua e a noite estavam vazias, com apenas as luzes da passarela.
Como eu sei que é verdadeiro?
Porque está tudo bem.
São memórias frias ao meu lado. Memórias frias ao seu lado.
Está tudo bem. 





segunda-feira, 14 de novembro de 2022

Pronto

 80/20 eu te detesto. fico bolando o dia agradável pra você chegar e debochar, rir as minhas custas. não posso encostar que afasta, perguntar que ignora, sequer convidar que dispensa. 80/20 eu te detesto. fico p da vida quase toda hora com teus olhos revirando, tua reclamação e implicância constante. 80/20 eu te detesto, mas eu também gosto nos 20. e isso fode tudo, fode completo, mais que os 80 que detesto. nesses 20 eu não quero ser regrado, nem julgado. eu só gosto em 20, sabe, e em consequência queria ser gostado de volta. 

não mente. você gosta de mim? 


segunda-feira, 20 de junho de 2022

Sussurro

Já imaginei essa conversa de todas as formas possíveis e impossíveis. Em todas, praticamente, chego num beco sem saída. Não consigo desenvolver uma cenário em que conte o que sinto sem que isso não torne tudo diferente.

Talvez seja melhor assim e assim consiga finalmente o que já venho querendo: te afastar. E te afastando possa respirar um ar melhor de conformação, que a distância infinita e impossível daquilo que se ama dá.

Acho que já disse mais de uma vez que te amo, mas no contexto pareceu sempre só um despretensioso gesto de sinceridade e agradecimento, como daquela vez que falei da importância da sua presença nos meus dias. Só que hoje a tentativa é de dar forma ao que nunca pareceu mais que um gesto exagerado e dramático.

É verdade, eu te amo despretensiosamente, sem vontade de experimentar a rejeição por te falar essas coisas assim, mas também te amo com um nó na garganta, uma insônia em alguns dias, do jeito inquieto, tremendo, ansioso.

Sinto muito por isso, onde um desses "muitos" é por ser um sentimento que sem querer existe, complica tudo, embora outro muito é que também O sinto mesmo, muito, e por que sinto há tantos anos já nem sei o quanto é verdade, ilusões, desencontros, medo, pois já usei todas as minhas armas e farsas e enganos pessoais para afastar os gatilhos que tenho ao pensar dessa forma. Absolutamente nada foi capaz de me tirar isso da cabeça, nem você foi capaz, pois tragicamente eu acabei amando a essência e não a forma, o que torna tudo mais segunda fase romântica e complicado.

É sempre agridoce te ver. Um misto de vontade de abraçar ao entrar pela porta, junto de uma catarse que me leva a ser chato, insuportável e enjoado. As vezes te contemplo em silêncio, em que o silêncio nessas horas costuma esconder muita coisa, mas nem tudo precisa ser revelado mesmo.

Me sinto bem e um pouco triste. Se eu pudesse escolher o que não ouvir depois de dizer tudo isso, seria tudo menos um brutal sermão. Eu sei as variantes e consequências, já pensei em todas que fui capaz. É uma recriprocidade que desejo quase como uma punição, porque sendo recíproco, mesmo no íntimo mais profundo, traria paz pra esse tempão todo desviando de te olhar mais de 3 segundos nos olhos, e eu sairia desse furacão feliz. 

Porém é razoável, com certa esperança, pedir pra que perceba que não escolhi sentir isso e que aceito esse fracasso pessoal por não ser capaz de evitar. Saiba que me esforço constantemente pra não transparecer, pisar fora da linha, cobrar - nisso eu falho - ou esperar mais do que já tenho nisso tudo, visto que já ganho um sentimento amável e incrível de volta, pois sua presença consegue me fazer feliz tanto quanto as coisas que mais importam pra mim, afinal você é uma delas.

Posso dizer com certeza que de forma alguma quero magoar ou até destruir as pontes que fizemos nesses anos, entre tantos desentendimentos, mas também queria abrir meu coração, de forma sincera, deixando no agora e nas suas mãos o que fazer com a verdade. Sei viver arrependido por ser incapaz de mudar isso, mas não saberia chegar ao fim da vida sem nunca ter te deixado saber que dentro de mim você tem sido alegria, raiva, um pouco de tristeza, diversão, saudade e amor - não necessariamente nessa ordem.









segunda-feira, 15 de novembro de 2021

Encerramos aqui, pode ser?

Downtown Lights listening...

Sem muitas opções do que pedir e sem muito saco pra passar horas escolhendo o mesmo sanduíche de ontem, deixei o celular de lado e fui até a varanda. Os prédios e casas daqui de cima dão vertigem e parecem insignificantes, mas ali dentro tem um montão de histórias e dramas. Há, nessas residências, quem goste de pipoca doce, Godard, selvageria no sexo, teatro e até mesmo de remédios ansiolíticos. Ficava ali contemplando seus telhados frágeis comparando com os meus. Seus objetivos eram tantos e será que eram como os meus?

Estive diante de soluções e problemas tamanhos, de pessoas incríveis e detestáveis. A fome me deixava assim, observativo, experimentativo, abusivo e severo comigo, verdade seja dita. Alguns dos meus maiores sonhos agora já não faziam tanto sentido, porque uma parte bem minúscula de mim estava pichado feiamente em seu sorriso. Se alguém te olhasse não poderia dizer que havia um monte de drama em suas mãos por causa disso. Quem diria que esses tantos pensamentos e características suas poderiam ser refletidos em como organizar casas, pintar paredes e escolher bibelôs especiais para que a vida de outros tivessem tanto sentido, já que a sua não. Dizem que assim são os artistas, cada um escolheu descrever a arte de acordo com sua própria natureza e muitas coisas são terrivelmente assustadoras. Particularmente sempre tive sono ao tentar entender suas obras, parte por pura preguiça, parte por puro desinteresse, parte por pura descrença. Um terço para cada coisa boba que me fez descreditar nesses tantos aspirantes. Porém deixei 1% significantemente audaz para o benefício de ser surpreendido por um deles. 

Agora, diante de tantos dilemas e uma doença que me assola sem descanso, o ceticismo moral, acendo uma vela com cheirinho de romã e deixo ir toda mazela que essa vista me mostra e tanto amedronta. Talvez amanhã alugue uma bicicleta e saia por ai, fingindo estar na Holanda, acompanhando os canais, descobrindo bares, deixando recados pra você com desconhecidos - "diz pra Ridícula que eu nunca esqueci" - me agarrando a essa imponente vontade de te abraçar no meu passado. Ah! se eu pudesse apenas visitar como espectador e reviver os amores e também as dores, quem sabe tivesse a mesma sensação que tenho ao rever as últimas lembranças que de ti guardei. Principalmente aquela de que poderia ser sido de uma forma melhor, aquele seu beijo que era uma merda, em que sua língua não sabia ficar quieta e como era astronomicamente desconfortável guardar pra mim o quão inútil foi ter desejado tanto para tão pouco.

Encerramos aqui, pode ser?

segunda-feira, 12 de julho de 2021

Cinzas de ouro


Digamos que você me desse mais um tempo, 
mais uma chance de falar denovo.
Eu começaria por aquilo que faltou ser dito 
e daí partiríamos, mais uma vez do fim.
Seria preciso coragem pra subir essa muralha, 
tão alta que mesmo num inverno seria possível ver o sol.
Coragem suficiente para viajar pelo mundo, sem grana,
sem comer, se conhecer, sem razões para dormir, 
pensando em você.
Vendo o que hoje é capaz de fazer, dizer e escrever, 
eu sinto que nada tenho a acrescentar e quase nada para 
imaginar, talvez nenhum desejo.
Eu gostaria que você tivesse sido mais aberta, mas
não do tipo que só joga conversa fora com esses seus lindos lábios.
Gostaria de ter aprendido mais com seus olhares, mas distante das outras pessoas, sabe.
Talvez assim você tivesse me contado seus segredos, 
o mundo que carrega nas costas por ser assim sensível.
Talvez eu pudesse ajudar de alguma forma, pois esse peso não é fácil, eu sei, 
mas nunca se sabe.
Quem sou eu pra entender sobre seus problemas e conflitos.
Sou um cego para o que você tinha a mostrar.
Fiquei esperando que me contasse e nunca perguntei. 





quinta-feira, 27 de maio de 2021

Mais um quase



Eu costumava conversar com uma garota na escola por horas.
As vezes as coisas não iam tão bem e conversávamos fora da escola também.
Talvez ela procurasse algo novo e eu só procurava não ser o mesmo bisonho de sempre.
Hoje nem lembro sobre o que eram nossas conversas, se sentíamos saudade de verdade ou se já era o apego emocional a coisas impossíveis; nós.
Fui até seu encontro numa noite, podia ter dito não, podia ter passado menos do ponto, podia concluir tantas coisas diferentes, ter me deixado ir, mas a gente escolheu sentar num banquinho. Ela vestida com um justo vestido preto e pernas cruzadas sobre as minhas.
O que era dito nem tinha tanta importância, tanto que logo estávamos de pé nos abraçando, entre carinhos no pescoço com seu nariz. 
Nem eu sabia mais se isso era um jogo, desejo ou um deslize.
O tempo passou e nunca mais nos vimos, falamos ou pensamos um no outro.
Não falo por mim.


Capítulo 1: Mais perto do chão que o piso

Alagado e podre estava o bosque ao sul de Mainas. Se minhas botas não fossem resistentes ao fogo, talvez servissem para atravessar sem deixa...