terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Lindalva

Minha pobreza é essa daqui. Eu não tenho, as vezes. É muito caro um pé dessas chinela aqui, é cara. Aí eu digo, meu Deus, inves de comprar um pé dessa chinela, vou comprar minha comindinha. Um arroz, que é muito caro. Arroz é caro. Aí eu compro o arroz e a chinela fica de banda. Eu boto um prego e ando pra todo canto. Vô pra todo canto. E as roupa minha é assim. Aí tem muita gente que vê "ow, vô dá umas roupinha" aí faz aquela sacola de roupa e mim dá, aí eu acho é bom. Visto, pronto! A minha pobreza é essa daqui. Mas eu vou a frente, né. Num tenho ambição por nada de ninguém, não.
Quando chegamos logo aqui, não tinha ninguém pra dizer 'é aberta', não. Aí era mata.
Aí nós broquemo, queimemo, fizemo um limpo. Aí fizemo um acampamento de plástico. Fiquemo dentro.
Aí todo mundo passava e dizia: "ó o acampamento, pessoal acampado". Nós nem ligava. Nós cozinhava no mei do terrero, o fogão. As panela de comida nós botava no mei do tempo. Lai vem a chuva, molhava. Carregava a chinela nossa, chinela, roupa. A água carregava, nós nem ligava. O dia amanhecia era tudo molhado, os lençol. Nós estendia, darra um arzin de sol nós estendia, que quando enxugava, nós armava denovo as redinha nos pau. O vento levando nós e trazendo e nós achando bom.
Era tão bom, que hoje ainda é bom. Aí comecemo a brocá e fizemo um roçado, pronto. Aí temo cada qual eu tenho meu roçado, tenho meu pedaço todo aberto, tem minha capoerinha que eu planto. Eu tenho um jumentim que eu boto água é dento a capoera lá que eu fiz pra ele cume. Aí pronto. Aí é felicidade aqui. Ainda tô feliz ainda aqui.
Sempre eu trabalhando na terra eu dizia a meu pai desse jeito: "pai, um dia eu ainda vô comprar um terreno pra mim" o pai: "com o que minina?" eu digo "vô trabalhar, vô butar um roçado, eu vendo o roçado, o milho, o fejão que eu fiz, eu compro um pedacin de terra pra me morar" o pai "arr, ê mia fia, nesse tempo que você fô comprar essa terra, num ixiste mais essa compra de terra nao" digo: "o que? o pai vai vê, como eu vou comprar um roçadinho pra mim, um terreno pra mim morar". Sempre eu dizia isso pro meu pai.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Uma dúvida aqui...




Pizza congelada é horrível, mas a gente arrisca a indigestão porque é alimento. Me desculpe se fui rude na comparação, mas sem ser drástico jamais nos entenderíamos. Nos discursos no corredor, atiçava épicas batalhas sobre amizades entre homens e mulheres. Não havia sem interesse e ponto, sem delongas ou explicações. Admitia estar equivocado pra não ferir argumentos tão ferrenhos de sua parte, porém você lutava contra nossa amizade e isso dizia muito sobre meu ponto. Te faltava cuidado ou eu era desprezível. Há uma probabilidade pra tudo, não é mesmo? Naquela época era legal? Sim, sem dúvida. Éramos amigos sem benefícios? Claro, de sua parte convicta permaneceríamos assim. Da minha não e por isso paramos de nos falar.
Arrumou um namorado que antes era amigo e eu tive razão, razão total.
Era necessário acreditar numa ideia tosca e ter um plano b. Homens e mulheres podem ter amizade sem interesse, essa era a ideia. O plano b girava em torno de nos falarmos, mas não sermos amigos. Sou paia ou sou o medo? Responda você agora ou vá embora.

Amigos

E o tempo passou, aquele cômodo velho mudou, aquela turma não tem mais, do passado há pouco, a memória vai fraquejando e um dia vai chegar o dia do além tornar tudo ímpar, melhor, primo.
E as coisas tão simples, tudo tão normal, seremos pó de choro e sorriso de alguém. Dentre os vasos que perambulam na estante, e os quadros que tamanhos são importantes, a parede deve ser deixada intacta. no máximo uma cobertura de papel, pra gente voltar na velhice e lembrar que horas no telefone eram segundos que idade nenhuma apaga. Nuvens em forma de tudo e sem forma, se formam das chaminés. E eu falo como elas, dando formatos cafonas a tantas verdades e mentiras. Sinto que sustento meu mundo de contos, senão fecharia as portas e demitiria todos vocês, que tanto vivem pra me alimentar de aventuras.
Sem armas, são heróis tão desesperados quanto eu. trapos cobrem desejos, mãos sentem os sonhos, reais, surreais e irreais. muitos de outra época, gerações perdidas, meninos e meninas ainda. Contrapontos, senis garotos, de tão tortos, pesados. Convergindo entre si no apoio diário do afeto escolhido. 


Relato

Hoje o céu tá um tanto cinza. Fortaleza tem esses dias; é uma forma de lembrar que por aqui temos muita saudade. Fico me perguntando se apro...