Shine OST - Tell me a Story, Katherine
(a mesma do anterior, ainda)
Sinceramente, não pensava em me mudar. Meu apartamento era minúsculo, de uma arquitetura que falava por si, um só corredor, uma sala sem imóveis, eu sempre os mudava de lugar, reagrupava as cadeiras e o sofá guerreiro de um jeito charmoso, todo mês, pra receber a sua ilustre presença. A casa já sabia como se comportar na sua presença. Um ou dois copos de Chandon e tudo se resolvia num passe de valsa. A cozinha não era desprezada e sempre servia de palco das menos e mais ousadas tentativas culinárias, entre outras criatividades. Sabia que ia sentir falta daquele meu espaço ali no canto esquerdo do lado da estante com livros, onde me sentava quando não tinha sono, abria com cuidado a tampa do meu velho Essenfelder e tentava atropelar alguma melodia que me recordasse os seus belos passos, calçada com suas meias, pela sala. O nosso chão era de madeira, então rangia e eu já sabia que era a sua chegada na porta da frente. Logo em seguida as chaves batiam na mesa e a voz que me chamava era a mesma há muitos anos, a mesma canção nos embalava as declarações.
Talvez, se eu tivesse mais espaço, pudesse preencher com mais imóveis, posters de filmes, heróis, e não ficasse me sentindo tão enclausurado na mesma idéia de que faltava algo complicado para completar aquele vazio. Mudar não representava nada além de decidir sozinho ser alguém diferente, por que se eu continuasse sendo assim, como era, não ia conseguir esperar outra pessoa aqui além de ti. E isso era difícil, sabe. O novo prédio tinha garotas bonitas, era perto da praia, no bairro nobre. Verdade, eu cedi aos luxos que tinha um dia desprezado. Nessa nova etapa, eu quebrava minha condição de away pra esse tipo de coisa. Eram coisas animadas, mas não significavam nada comparado ao último bolo de laranja que fizemos, espremendo naquela massa nossos sorrisos.
Tinha que dar tchau à altura do que o lugar representava pra mim, então fui até uma floricultura, antes de chegarem os novos moradores, um casal de jovens, com pouco menos de 26 anos, recém casados, comprei de cada rosa umas 100 e espalhei pelos cômodos. Ah, eu não estava velho, mas você já tinha falecido e ser viúvo era chato e sem propósito. Eu precisava encontrar uma nova maneira de curtir o amor, nem que eu precisasse inspirar outros a amar. Escrevi uma carta dedicando a nossa casa assim:
"Até mais e obrigado pelos beijos."
Nenhum comentário:
Postar um comentário