Nossa história foi tão abobalhada, tão breve. Acho que foi nela que perdi a vontade de fazer tudo certo e comecei a me deixar enganar, a enganar e, principalmente, a fingir bem — muito bem.
Não se importar é um atrevimento tão absurdo que, respondendo à sua última pergunta: sim, eu mudei levemente quando voltei de Orlando. Mudei um mínimo, mas nunca imaginei que nosso amor fosse tão delicado a ponto de quebrar com o que trouxe de lá: um pouco de vaidade, um pouco de nariz empinado — coisa normal na adolescência. Ainda assim, eu continuava abobalhado pelos seus olhos verdes, pela sua gargalhada mágica e por esse jeito único de me fazer sentir um príncipe entre os plebeus.
É... e você nunca acreditou em mim. Nunca.
Fui até você todas as vezes que chamou, incerto e vulnerável. Nem contei os passos. Gastei meus milagres só para te ver, e vi você aos beijos com outros em viradas de ano. Ouvi pessoas que eu desprezava falarem da sua beleza. Esperei até o dia em que ouvi, ao telefone, um “eu te amo” tão sincero que rasgou meu coração ao meio, mesmo depois de tanto tempo. Aquilo foi o asilo do meu fracasso como memória. Não era só póstumo, era uma grande farsa — uma grande bosta.
Pensar que hoje sobrevivi é como engasgar com o abjeto: um nó seco, um choro preso, um arrepio sombrio, uma raiva estúpida e sem sentido. Não te perdoo. Apenas finjo e sorrio altivamente, de orelha a orelha, porque não fui eu o covarde. Não fui eu. Eu suportei dias a fio, revivi lembranças, escrevi cada lágrima seca e todas as juras secretas.
Eu vivi as dores, o luto e a falsa esperança em todas as vezes que olhei no fundo dos teus olhos e voltei a ter 15 anos: um menino prodígio, um superdotado cheio de sonhos inocentes, perdido de amor por alguém que deixou pra dizer o que precisava quando já não era mais hora.