terça-feira, 31 de março de 2015
Zak de Platis
"A mentira não tem valor se não pretendo esconder uma verdade..."
Era de alguma forma triste e divertido ver aquele garotinho sofrendo de fome, então como um animal domesticado fui alimentando-o em segredo. Final de tarde eu "esquecia" um bom pedaço de pão na janela. Até que ele entrasse no beco que ficava minha casa, levou três semanas e só durante a feira dos mercadores em Harmon, teve coragem e investiu contra o pão como se devorasse uma perna morta, como um abutre ataca ferozmente uma carcaça pútrida. A fome fazia ele, com menos de 5 anos, cruzar a praça e procurar por mais pães abandonados. Era esperto, ligeiro, atencioso. Se eu deixasse algo fora do lugar, diferente do comum, nem sequer entrava na esquina. Eu era Elys e ele Zak. Era uma ex-devota, ele o futuro trunfo.
Fiz dele o meu melhor. Costumes, roupas, nomes, nobres, tradições, política, feudos, venenos, mentiras, que se afastasse disso, mas era teimoso e queria aprender a fingir, pra escapar de certas situações. Era comum evitar perambular a noite por razões óbvias, crianças tem medo da noite, mas um eu dizia que um bruxo sequestrava crianças perdidas. Minhas mentiras estavam péssimas, mas era divertido o conforto de uma companhia durante a noite. Os anos passaram e ele cresceu saudável e fiel. Compartilhava os planos e os bônus de pequenos golpes. Certa vez vendeu a um mercador de Platis uma rosa rubro, dizendo ser o reagente base dos venenos de rãs raras dos bosques. Rendeu 6 moedas de prata e uma fotografia exposta em quase todas as muretas. Foi necessário passar alguns dias desaparecido.
Quando completou 20 anos partiu sem explicação. Deixou quase todos os bens pessoais. Foram oito anos difíceis. Retornou um homem, espancado, cheio de sangue. Investiu contra um velho anão em sua loja de armaduras e tomou uma surra merecida. Você só deve roubar de quem não pode te pegar. Essa era a lei das ruas. Voltou para buscar seus bens e partiria pra Ostaria, tinha um plano, pretendia assumir a identidade de um nobre órfão, perdido durante a guerra. Se verificassem seu passado seria confirmado. Assim partiu mais uma vez, meu garoto. Outros longos 4 anos passaram e ele bate à minha porta. Eu minto, ele me perguntou sobre Virgus e eu menti, ele acreditou, Ele voltara. Era minha vez de partir. Deixo pra você meu medalhão, minha adaga e meu coração dentro de mim.
Na casa dela tudo revirado, teias de aranhas, móveis quebrados, um cheiro podre de carniça, um corpo em decomposição. Puxei minha faca, abri o peito e tirei aquilo de tom verde escuro, pulsante, ainda vivo. Na gaveta da escrivaninha quebrada um medalhão. A adaga já estava comigo, meu melhor furto.
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