terça-feira, 31 de março de 2015

É mesmo mentira?

Rule my World - Kings


"Coruja no peito, unhas pintadas, desbotado no cabelo, uma multidão... "


Alguns shows no currículo e seu converse aposentado lhe davam moral pra dispensar certos materialismos.
Numa lista de vinte metas pra 2015, em 2014 já havia realizado metade sem planejamento prévio e o que restava tinha tempo de sobra pra resolver ainda nesse mês de abril. Notei que era mais simples e eficiente falar uma verdade no 1º de Abril, que mentir uma vida inteira. Eu era um guri ferido do ensino médio e você uma artista. Você tinha o corpo meio disforme, os seios um pouco caídos, mas isso era experiência de vida. Tudo em cima é péssimo, dá confiança demais, deixa a pessoa assertiva e eu queria o seu erro, o seu texto escondido. De alguma maneira aquilo mexia comigo. Essa diferença de idade era uma mera maturidade moderna, revolta retraída, era regra, resposta redundante aos impulsos. Aí o dia 2 chegava, a tradição, personalidade dos idiotas, perdia o sentido e voltávamos a nos falar como aluno e professora. Aprendia que nada disso é real, enquanto queria ensinar que nada é tão legal quanto na imaginação. Vamos deixar assim.

Zak de Platis




"A mentira não tem valor se não pretendo esconder uma verdade..."



Era  de alguma forma triste e divertido ver aquele garotinho sofrendo de fome, então como um animal domesticado fui alimentando-o em segredo. Final de tarde eu "esquecia" um bom pedaço de pão na janela. Até que ele entrasse no beco que ficava minha casa, levou três semanas e só durante a feira dos mercadores em Harmon, teve coragem e investiu contra o pão como se devorasse uma perna morta, como um abutre ataca ferozmente uma carcaça pútrida. A fome fazia ele, com menos de 5 anos, cruzar a praça e procurar por mais pães abandonados. Era esperto, ligeiro, atencioso. Se eu deixasse algo fora do lugar, diferente do comum, nem sequer entrava na esquina. Eu era Elys e ele Zak. Era uma ex-devota, ele o futuro trunfo.
Fiz dele o meu melhor. Costumes, roupas, nomes, nobres, tradições, política, feudos, venenos, mentiras, que se afastasse disso, mas era teimoso e queria aprender a fingir, pra escapar de certas situações. Era comum evitar perambular a noite por razões óbvias, crianças tem medo da noite, mas um eu dizia que um bruxo sequestrava crianças perdidas. Minhas mentiras estavam péssimas, mas era divertido o conforto de uma companhia durante a noite. Os anos passaram e ele cresceu saudável e fiel. Compartilhava os planos e os bônus de pequenos golpes. Certa vez vendeu a um mercador de Platis uma rosa rubro, dizendo ser o reagente base dos venenos de rãs raras dos bosques. Rendeu 6 moedas de prata e uma fotografia exposta em quase todas as muretas. Foi necessário passar alguns dias desaparecido.
Quando completou 20 anos partiu sem explicação. Deixou quase todos os bens pessoais. Foram oito anos difíceis. Retornou um homem, espancado, cheio de sangue. Investiu contra um velho anão em sua loja de armaduras e tomou uma surra merecida. Você só deve roubar de quem não pode te pegar. Essa era a lei das ruas. Voltou para buscar seus bens e partiria pra Ostaria, tinha um plano, pretendia assumir a identidade de um nobre órfão, perdido durante a guerra. Se verificassem seu passado seria confirmado. Assim partiu mais uma vez, meu garoto. Outros longos 4 anos passaram e ele bate à minha porta. Eu minto, ele me perguntou sobre Virgus e eu menti, ele acreditou, Ele voltara. Era minha vez de partir. Deixo pra você meu medalhão, minha adaga e meu coração dentro de mim.

Na casa dela tudo revirado, teias de aranhas, móveis quebrados, um cheiro podre de carniça, um corpo em decomposição. Puxei minha faca, abri o peito e tirei aquilo de tom verde escuro, pulsante, ainda vivo. Na gaveta da escrivaninha quebrada um medalhão. A adaga já estava comigo, meu melhor furto.

Relato

Hoje o céu tá um tanto cinza. Fortaleza tem esses dias; é uma forma de lembrar que por aqui temos muita saudade. Fico me perguntando se apro...