domingo, 29 de junho de 2014

Bobagens vêm à toa

Shine - Tell me a Story, Katherine



"Bravo! Aplaudiu você da platéia, assistindo a nossa vida..."



Quem inventou as manias, quem começou a contar o tempo, quem definiu a saudade? Acho que aos poucos a gente vai se notando, encontrando as nossas aspas entre enormes frases. Assim a coisa toda vai tomando forma, no meio divagante das necessidades, dos rostos e desejos. De certa forma, contar uma história é uma experiência amarga, pois sabemos que terá início, meio e fim. Só que ela acontece de repente, como uma névoa que dela só sabemos a intenção até tomar a forma. Formávamos um par e tanto. Os beijos vinham regados daquele nostálgico e clichê romance hollywoodiano, com direito a pontinha dos pés e chuva. E como todo grande Amor, o desfecho era a trama mais e menos complicada desse drama sem freios, sem remorso, sem o pingo de respeito por quem somos hoje, que teima em ser um farol, um obelisco, um marco assombroso de tão perfeito e triste. Ora diretores, ora escritores, ora atores, ora espectadores desse teatro que sugou boa parte do nosso sangue. Chorávamos em homenagem às nossas burradas. Crianças cheias do puro idiotismo obsessivo pela tal felicidade que nunca chega, cheias de curiosidade, cheias de vontade por coisas sem fim, cheias de si mesmas e loucas por outras pessoas, no nosso caso eu por você e você por mim, um tolo e meia.
Quem trocou as cortinas, quem prometeu vir e não veio, quem ainda passa por aqui pra saber como estou? Enquanto encontramos tais respostas, as crianças crescem e certas coisas vão deixando de ser reais, as primícias são outras, as promessas também. Certa vez fiz algo bobo pra você, era uma carta cheia de letras recortadas, era um pedido de resgate do nosso namoro pra sua querida avó. Tive que ser duplamente forte pra abandonar aquela idéia, mas fui feliz em descobrir que havia alguém de um metro e setenta e seis, cheio de vigor e disposição pra, com uma pá e adubo, enterrar o que já fui e regar até crescer essa enorme árvore que ainda teima em fazer sombra pra você.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Me perdi no tempo...

Wild Nothing - Nocturne



"Sabe aquela história de que qualquer dia a gente se encontra? Se eu disser que é possível, basta adicionar ao tempo uma melodia. Não entendeu? Pois feche os olhos, imagine uma escada rolante, dela eu desço com mais dois amigos e você de baixo observa o seu amor descer em sua direção. - não teve música, você falou que precisava de música... - mas acontece que você já viajou e o que te faz sentir isso é real no tempo..."



Eram 2:13 e meu sono tinha acabado completamente. Me levei até o freezer. Algum congelado podia me deixar menos apático, mas ao paquerar com as poucas opções entre hamburguers e lasanha cheia daqueles terríveis carocinhos de tomate, preferi ir até a sacada pra ver o que ocorria na noite. Nenhuma estrela cadente, fazia pelo menos 6 anos que não via uma, as mesmas constelações, o mesmo breu entorpecente, a mesma cor, a mesma lua. Me vesti e pela escada de incêndio desci agasalhado e fui dar uma volta. Aquela iluminação amarelada assumia muita coisa, cidade sem cuidado, terceiro mundo, planeta terra. Ruas com dois sentidos que me deixavam confuso. A vida começa a perder o rumo quando se tem a opção de ir e voltar. Deve-se só ir, nunca voltar. O tempo foi inteligente quando escolheu só passar e os watchmakers tentaram manipulá-lo com frustração. Era bem esse tipo de pensamento que me fazia caminhar por horas, pensamentos sem nexo, sem propósito. Exatamente o que me fazia pensar em você, que pintou os cabelos há uns anos, mas não pintou de outra cor mais amorosa o que achava de mim. À luz do que eu achava sensato, você estava certa e eu completamente errado, mas as vezes a gente deseja coisas diferentes da realidade.
Sentado pensando em idéias assim um senhor se aproximou e falou de amor, coração, saudade. Eu escutava atento aquela história, mas estava mais atento em como contextualizá-la em minha própria miséria. Uns têm falta de comida, eu tinha falta de apego. Havia me perdido no tempo e embora já tivesse desistido de procurar uma nova chave de portal, viver uma realidade alternativa não é bacana como se pensa. Imagine você que eu era um watchmaker e isso é realmente cômico, pois foi na tentativa de manipular o tempo, que ele foi mais sagaz que eu e me tomou um encontro, meus pais e a minha habilidade de compor canções, fator x na hora de viajar. Eu precisava de três coisas, um relógio com ponteiros ajustáveis, uma estrela cadente e uma composição vinda de uma verdadeira inspiração. Sim, eu era O Viajante Perdido. O prazer é todo seu, porque eu ainda estou perseguindo o marco zero, onde eu deixei o tempo me levar até aqui e essa é a minha história.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Feliz Aniversário

 Survivor - High on You


"Unfriend..."


Já era hora de dar um basta naquela moleza, então fui até o mercado comprar uma rede, esticar as pernas, passear pelo centro. Já foi mais tranquilo andar pela cidade no domingo, tem um bosque bacana que te leva até o acervo da cidade e até o parque das crianças. A sensação é nostálgica, de uma completa saudade de um tempo que eu nem vivi, e nem mesmo consigo imaginar como era viver uma boemia na praça dos leões. Dizem que alguns poetas costumavam comer um pão por ali, pois havia uma padaria onde reuniam-se pra conversar sobre garotas belas e música. A música se foi também, a música popular se foi, o mucuripe não tem mais velas, a ponte pertence mais ao pirata que à cidade. Como foi que deixamos chegar a esse ponto. Arde e tem sido uma constante melancólica ver a cidade se reesculpir sem charme, sem propósito. O que vou mostrar aos netos, em fortaleza?
Uma cidade cinza, sempre na mesma estação.

Que bobagem minha, não vendem mais redes. As casas são feitas para tecnologia, compactas, multi-funcionais, nada clássicas, sem espaço, um cérebro sem grandes questões, uma gaiola de idéias, aquele que se aventura morre de fome, de sede, chora, perde o gosto. Podam as sombras, derrubam a história, embora construam outras, o novo velho, o velho novo.




Relato

Hoje o céu tá um tanto cinza. Fortaleza tem esses dias; é uma forma de lembrar que por aqui temos muita saudade. Fico me perguntando se apro...