Keane - Won't Be Broken
"desde que um dia retorne e nunca me esqueça.."
Não podia concordar com aquela ida e vinda. Eu tinha espaço pra muita coisa, pras suas coisas, mas não tinha paciência pra casualidade. Uma vez que vim até aqui, me pintei toda, mostrei meus joelhos numa saia rodada, acreditava merecer mais que ser uma futura lembrança escondida num guarda-roupas velho e uma encoxada. Nos despedimos com um abraço, com um aperto, com uma já saudade.
Levantamos, os dois, os ombros, piscamos os últimos ciscos, sentimos o
último perfume, chegamos a prometer nunca esquecer um do outro. E você
esqueceu.
Tentei te encontrar não mais que três vezes, até que meu senso de desapego retornou como um soco no estômago, e já estava na hora, dessa vez ele veio na hora certa, antes que começasse a fazer sentido a minha ilusão de que eu não podia envelhecer, sem antes me desfazer em um blog como esse. Daí, o que era um quarto desleixado pelo tornado 'nós', passou pra uma organização metódica, em que numa estante estavam meus livros, no armário suas roupas velhas num saco, na mesa dois espelhos e minhas maquiagens, no criado-mudo alguns comprimidos anti-depressivos e na cama meu corpo podre de quase quatro dias sem um banho; não tinha absolutamente nada que me desse a vontade de me limpar, de cheirar bem, de me tocar. Era você quem fazia isso, era você quem me tocava. Pretendia passar alguns meses assim, em intervalos bem distintos de séries de curta duração, aulas de desenho, no máximo dois banhos por semana e deixaria sair a tinta do meu cabelo, iria deixá-lo crescer além dos ombros também.
Quando me dei conta, acordei com você do meu lado, suando do sol que entrava pela janela, sem camisa, de bruços. Fui até o banheiro, lavei o rosto com os olhos ainda pesados de rímel, sorri amarelamente pro meu reflexo, sonâmbula, descontente, histérica e resolvi realizar o meu sonho.
Você foi embora pra sempre e eu fiquei sem te dizer porque. Agora você sabe.
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