Vidar - What Dit I Know
"Como uma abelha, ao se sentir ameaçada você picava. Hoje seria a última vez que você me machucaria."
Anarquia seria se eu te tomasse à força e te empurrasse mágoas à dentro com remédio de desculpas. Eu não era bom nesse quesito de engolir seco algumas conversar e concordei com você. Por que quando há um certo tesão entre dois, é preferível acreditar que é amor e deixar a briga de lado pra mais uma meia horinha. Depois, quem sabe, eu pudesse te dar liberdade pra pensar o que quiser, mas agora a sintonia era outra e garantiria mais uns dois ou três meses de paz.
Não era tão diferente. O Pitiatismo que tínhamos desenvolvido era, parcialmente, a solução pra todo desencanto em questão. Um amigo sofre disso com sua garota, que ataca de epilética nas sextas e sábados à noite. O engraçado é que ele, meio realista, sabe que um dia isso há de envergonhar a moça. Por isso deixa seguir a cena. Amanhã ela se trata e fica tudo bem e ele solteiro e, na teoria, em paz. Eu te agradeço por atacar de devassa nessa hora. Quem disse que o fogo da paixão não consome o rio da amargura, pode estar vivendo um tremendo momento assexuado, ou não percebeu que a raiva é combustível pro orgasmo. Acho que quase todo mundo passa por isso, ou não. Outro dia vinha do mercado, por volta de 20h ela me liga dizendo que precisava conversar e que está no meu hall. Ficou claro que por não entrar no meu apartamento usando sua chave, ela queria que tudo tivesse início, meio e fim por ali mesmo. Desde manhã eu já vinha pensando na possibilidade maluca de transar naquele espaço minúsculo da saída de incêndio, mas ela era muito relutante, cheia de pudores. Eu não podia forçar nada, por que do contrário quebraria outra fantasia, portanto segui confiante mesmo grilado como jeito que ela falou no telefone. Devia ser o nervosismo da expectativa. Ela sabia que o casal do 202 tinha viajado e essa era a oportunidade perfeita e eu cheguei.
Olhei no corredor, nada. Olhei no elevador, nada. Ela devia estar escondida, nada. 5 minutos se passaram, nada. 10, nada. Entrei em casa, malas à porta. Ela conversava com a mãe no telefone, combinando onde iria esperar pra ser pega. O que é isso, eu disse meio risonho. As vezes dava uma doida e ela queria voltar pra casa, falava que era por que estava desempregada, adicionava que ficava muito só durante o dia e que passar muito tempo ouvindo música leva ao ócio do desinteresse. Estou partindo, primeiro o meu coração ao te deixar por aqui. Depois o seu que não queria que fosse assim, mas não tem jeito. Por que ela era assim quando algo não tinha solução. Acontece que pra gente, do meu ponto de vista, sempre ia haver um jeitinho meigo de te pedir pra entender que seria difícil ficar allalone, tanto pra mim quanto pra ela.
Ouvi pela janela a buzina do carro do seu pai, já tive medo, mas não desespero. Era a primeira vez. E se foi.
Podia dizer isso, que igual a mim você nunca iria encontrar, mas isso era óbvio, somos todos distintos. Resolvi te deixar seguir. Era o certo assim, por que o melhor eu acredito que seria ficar e desprezar nossos bem entendidos desarranjos emocionais. As coisas não iam bem, não ficariam melhores e já era clichê resolvê-las na cama. Isso já tinha deixado de ser uma forma amorosa de solucionar nosso dilema de sexo maravilhoso por mais um mês ou arrependimentos, muitos arrependimentos.
Enfim, guardei as verduras na geladeira, me servi um dose de keep walking e disse pra você, mesmo sem pronunciar, que o amor é reafirmado nas perdas, por isso, naquele momento, eu te amava de verdade. Um brinde a sei lá quantos mil rancores, um milhão de sofredores e a mim, que recebi você de volta antes do dia amanhecer com a frase 'desculpa, eu nunca mais vou embora, te amo demais...' e deitou do meu lado pra dormir.
Nenhum comentário:
Postar um comentário