Coldplay - Reign Of Love
"Eu não acredito em sentimento aos poucos e isso é basicamente o que você precisava saber."
Tinha 2 olhos grandes, braços cruzados, joelhos redondinhos, cabelos longos meio sem jeito de ser feios, mas como saber se eu estava apaixonado? Deixei seguir o bonde. Não tinha treinado essa parte da vida que me habilitaria a me aproximar de você e desengasgar parte dos poemas e dilemas que enfrentava diariamente de te explicar tudo virtualmente ou pessoalmente. Na dúvida, achei melhor torcer pra um time de futebol de segunda divisão, comprar um livro que estava fora da lista de best-seller, enfim, era mais adequado sofrer pela possibilidade de ver meu time descendo outra divisão, ou uma leitura ruim, como a que vos digito, do que tentar fazer um personagem que não ia te convencer do meu Amor. Abri alas para meus brotos sentimentais em cada coisa simples que eu fazia durante o dia. Comecei a cuidar de uma árvore, iniciei meu antigo projeto de postar 1 texto por dia, e voltei a conversar sozinho - me ouvir era a melhor maneira de me entender - sobre arte e tudo que poderia se tornar tão abstrato quanto aquele seu olhar por cima do ombro quando me viu entrar perdido no cover do legião.
Não podia explicar as razões e consequências das minhas pernas terem me guiado até aquele momento. Eu encarava as coisas no meio tudo-ou-nada, talvez tenha sido por isso que me preparei tão pouco destacado, maltrapilho, por que nunca fui de acreditar que pudesse construir uma fundação sólida a partir de pedaços repartidos de um romance aqui, uma decepção ali. Acreditava mesmo no amor à primeira vista, de quando tudo que era ausência se desfaz em uma espera romântica, uma repetição honesta da mesma música por horas, uma demonstração modesta de quanto uma única pessoa poderia tornar várias sensações, mesmo que ainda sem sentido, em certezas e um futuro juntos. Torcia pra que não fosse mais um noite entre cervejas, tragos, gritos e descaso comigo. Você não me deixava plantado como outras, sua companhia era constante e de um linguajar alternativamente engraçado. Eram nossas gírias que se confundiam com nossos olhares, ou nossos olhares que davam dicas pra o que dizer? A nossa conversa sobre as estrelas foi baseada no interesse de saber mais sobre os astros, ou pra tentar extrair deles nossa conexão? Afinal, você acreditava em signos, ou era só uma forma de mostrar como o horóscopo já tinha sido útil na sua vida, mas agora você queria mesmo era perguntar tudo pra mim, e não perder humor com aquilo que ambos acabávamos de perceber que era uma puta perda de tempo?
Meses antes...
Entre os livros e corredores, me pergunto onde está você. Existe ou é só fruto de uma mente infantilmente descrente? Pelo tanto de pessoas que conheço e que ainda vou conhecer, me resta alguma esperança de não ser um refém da minha própria realidade, mas já passo por um intrigante processo de não ter mais o véu da falsa credulidade nas pessoas. Maldito momento em que fui acreditar nessa história de que quebrar relógios era a melhor maneira de fazer o tempo parar, ou pelo menos o meu ar esperançoso.
Foi aí, nessa reveladora confusão, que topei com você e aquele seu cabelo de lado, óculos torto, olhos grandes e sorriso de lado, sem jeito por ter me feito derrubar um copo de achocolatado. Em meio à desculpas, e que sentia muito aquele acidente, surgiu uma fagulha do que eu tinha certeza ser algo inegável, falei meu nome e perguntei o seu. Ainda sem condições de interpretar os meus sinais atrapalhados, atropelei as primeiras sete palavras que significaram no geral eu, putz...é...olha, num tem problema. Arrisquei uma oitava e nova, 'é sério'. Fiz aquela cara de conformado, na falta de uma que não fosse de agradecimento. A proposta inicial era você me pagar um novo achocolatado, mas eu adicionei uma cláusula de que aceitaria se você me acompanhasse e o trato foi feito.
Era incontrolável, causava ansiedade, desfocava, movia tempo-espaço. Quando fui tentar definir pra você o que estava acontecendo, começou a tocar vento no litoral, misturado com uma gutural voz de um monte de pessoas conversando sobre qualquer coisa que era menos interessante do que te olhar ali diante de mim, ouvindo minha explicação. Daí, você me interrompeu abruptamente e...
"Eu tinha planos com alguém, sonhos à realizar, zibilhões de festas pra ir, e outras mesmas pessoas pra conhecer, até o dia em que fui idiota de estragar o nosso começo perfeito, quando derrubei seu chocolate nos meus pés. E sabe o que é, poderíamos nos beijar, mas um abraço me faria me sentir bem mais alguém do seu lado, agora. Você me lembra uma parte da minha infância que tenho saudade, de quando andava nas pedras na praia, de quando juntava um monte de lençol e brincava de cabana no meio da sala, de esconde-esconde, de conversar sobre fantasma, assistir filme até tarde, esperar pelo encantado que um dia apareceria. O natal chegou, o tempo passou, eu cresci e esqueci da minha antiga carta que mandei pro velho noel, que dizia pra ele me dar exatamente aquilo que eu precisava nessa data, um amor infantil, simples, de poucas ambições, mas de pura convicção. E você chegou, sabe."
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