As luzes estavam apagadas. Ansiedade e tristeza, se misturavam com a música tocada no solo de violino. O palhaço, chorava. Como um palhaço poderia ser amado? Atrás dos sorrisos estavam os cacos. Ele dançava tentando interpretar sua própria música, mas os passos eram com a cabeça baixa, rodava em circulos, circurdava os olhares. Passa o tempo sem dar muita importância para o espetáculo. Ele procurava com afinco um sorriso, mas só ouvia risos e deboches. A música baixa o volume e ele diz:
-Eu...(e apontou para o próprio umbigo)...sou o palhaço menos engraçado que eu conheço. Não sei contar piadas, não sei andar engraçado, muito menos minha risada é legal. Mas ainda assim, vocês riem de mim. Todos riem de mim!! Mas é claro, EU SOU UM PALHAÇO.
A plateia em silêncio, pensou por uns instantes e uma voz puxou uma vaia. Todos foram contagiados, e vairam o palhaço.
O coitado, saiu de cena. Uma música contagiantemente alegre, tomou conta do picadeiro abafando os ruídos e reclamações pela apresentação do palhaço.
As luzes se apagam e uma valsinha começa a tocar. Era suave e doce. A música tomava conta dos corações agitados das pessoas. Um fino feixe de luz azul, iluminou uma bailarina deitada no centro do picadeiro. Uma boneca dobrada em muitos movimentos levantava-se. Saltitante e aos olhares sorria e acenava, dançava com paixão e leveza. Enquanto ela passava próximo ao público, o palhaço entrou em cena, com uma rosa sem cor, branca. Talvez ele quisesse falar em esperança, mas ele não sabia que cor era esperança, mas ao avistar a bailarina, ele gesticulou com força e e seu coração abriu mudando a rosa de cor, de branca para azul. A bailarina reconheceu o gesto e andou em sua direção. A platéia não acreditou no amor. Talvez o palhaço tivesse encontrado uma razão para sorrir, mas era cedo para confirmar. Quando a bailarina se aproximou, outro gesto do palhaço mudaram a rosa para algo pontiagudo, parecia um espinho. A bailarina se assustou, e os olhos do palhaço se enxeram de lágrimas. A música parou:
- Linda bailarina, sem querer mudei de rua, saí da curva e virei na esquina. Você passou e eu te vi, fazia anos que não te reconhecia. Sua saia, suas pernas, sua voz, deixe-me ouvi-la. Não sou mais o mesmo, mas ainda sou o que você precisa. O meu sofrimento foi ter causado a ti uma enorme ferida. E chorando vivi, sem pensar em qual seria a minha sina. Hoje eu sei, pedir perdão e assumir, meu amor por você, menina.
A bailarina, ajoelhou-se, e chorou também.
O palhaço ergueu o espinho e perfurou o próprio coração.
Ajoelhado, ele faz um último pedido.
- Nem que do mundo eu me tire, ou pro mundo eu regresse eu peço a todos que riam.
E escreveu com seu próprio sangue seu amor, no chão batido do circo, que dizia:
" Amor eterno, é terno, é ter. Se um dia te feri, aos meus olhos me matei. Desejei não ter te feito, algo como eu te fiz, mas agora tu sorri e eu sozinho, para sempre eu serei. Amo...."
As luzes se apagaram e o violino tocou.
logo no começo da leitura lembrei de uma poesia. achei aqui na net. segundo consta, acusa que o autor é herique hine. o nome é esse mesmo. boa leitura! ;*
ResponderExcluirO Tédio
Paciente: Venho doutor, fazer-lhe uma consulta.
A doença que me punge e esteriliza a mocidade e o espírito,
Resulta de uma chaga que nunca cicatriza.
Muito embora comum a toda gente, a de que sofro, atroz hipocondria,
Tanto me torna pensativo e doente, que já não sei o que é paz nem alegria..
Sendo o mais sábio clínico do mundo, sois também um filósofo notável, do
Peito humano auscultador profundo, curareis este mal inexorável.
Que me destrói o organismo fibra-a-fibra
Que me enevoa o cérebro e o condensa.
Eu tenho um coração que já não vibra
Suporto uma cabeça que não pensa.
Este tédio mortal, tédio agoureiro,
Que me envenena, que me escurece os dias,
É como os beijos dado á dinheiro, numa noite de orgias.
Doutor: O amigo tem razão, padece realmente
Contudo a infermidade, o morbus que o devora,
É um produto fatal do século de agora.
Uma emoção vibrante, um abalo violento, pode cura-lo
Creio. Apenas num momento. O tédio é uma sombria, uma
Fatal loucura. É a treva interior, a grande noite escura.
Onde se esquece tudo. A sorte, a vida amada. O nosso
Próprio ser e só se lembra o nada.
---diga-me. Alguma vez amou ?
Nunca em seu peito estrugiu das paixões o temporal desfeito ?
Como as vagas de um mar que se agita e encapela, ao soturno rumor do vento
E da procela ?
Paciente: Nunca.
Doutor: Pois meu caro. Procure a agitação constante.
Um prazer esquisito, um gozo triunfante.
Já visitou a Grécia, o Oriente a terra santa ?
Os sítios onde tudo hoje evoca e decanta, as glorias uma idade imorredoura
E eterna, que amesquinha e deslumbra a geração moderna ?
Paciente: Em híbridos festins passei a mocidade. Percorri viajando, o mundo
E a humanidade, como Judas da lenda.
E entre as mulheres todas, cujos lábios beijei
Em bacanais e bodas,
Mulher nenhuma eu vi sobre a terra tamanha
Que para mim não fosse uma visão estranha.
Como parti voltei. Sem achar lenitivo para este mal doutor.
Que assim me trás cativo.
Doutor: Frequente o circo, amigo. A figura brejeira do famoso Arlequim,
Que a esta cidade inteira palmas e aclamações constantemente arranca.
Talvez lhe restitua a gargalhada franca.
Paciente: Vejo doutor, que o meu caso é perdido.
O truão de que falas, o palhaço querido
Que anda no Coliseu assim tão aclamado, tem um riso
De morte, um riso mascarado, que encobre a dor sem fim
Do tédio e do cansaço... sou eu este Palhaço.