segunda-feira, 12 de abril de 2010

O Palhaço e a Bailarina ( Ao som de Joshua Bell - Ladies in Lavander )

As luzes estavam apagadas. Ansiedade e tristeza, se misturavam com a música tocada no solo de violino. O palhaço, chorava. Como um palhaço poderia ser amado? Atrás dos sorrisos estavam os cacos. Ele dançava tentando interpretar sua própria música, mas os passos eram com a cabeça baixa, rodava em circulos, circurdava os olhares. Passa o tempo sem dar muita importância para o espetáculo. Ele procurava com afinco um sorriso, mas só ouvia risos e deboches. A música baixa o volume e ele diz:
-Eu...(e apontou para o próprio umbigo)...sou o palhaço menos engraçado que eu conheço. Não sei contar piadas, não sei andar engraçado, muito menos minha risada é legal. Mas ainda assim, vocês riem de mim. Todos riem de mim!! Mas é claro, EU SOU UM PALHAÇO.
A plateia em silêncio, pensou por uns instantes e uma voz puxou uma vaia. Todos foram contagiados, e vairam o palhaço.
O coitado, saiu de cena. Uma música contagiantemente alegre, tomou conta do picadeiro abafando os ruídos e reclamações pela apresentação do palhaço.
As luzes se apagam e uma valsinha começa a tocar. Era suave e doce. A música tomava conta dos corações agitados das pessoas. Um fino feixe de luz azul, iluminou uma bailarina deitada no centro do picadeiro. Uma boneca dobrada em muitos movimentos levantava-se. Saltitante e aos olhares sorria e acenava, dançava com paixão e leveza. Enquanto ela passava próximo ao público, o palhaço entrou em cena, com uma rosa sem cor, branca. Talvez ele quisesse falar em esperança, mas ele não sabia que cor era esperança, mas ao avistar a bailarina, ele gesticulou com força e e seu coração abriu mudando a rosa de cor, de branca para azul. A bailarina reconheceu o gesto e andou em sua direção. A platéia não acreditou no amor. Talvez o palhaço tivesse encontrado uma razão para sorrir, mas era cedo para confirmar. Quando a bailarina se aproximou, outro gesto do palhaço mudaram a rosa para algo pontiagudo, parecia um espinho. A bailarina se assustou, e os olhos do palhaço se enxeram de lágrimas. A música parou:

- Linda bailarina, sem querer mudei de rua, saí da curva e virei na esquina. Você passou e eu te vi, fazia anos que não te reconhecia. Sua saia, suas pernas, sua voz, deixe-me ouvi-la. Não sou mais o mesmo, mas ainda sou o que você precisa. O meu sofrimento foi ter causado a ti uma enorme ferida. E chorando vivi, sem pensar em qual seria a minha sina. Hoje eu sei, pedir perdão e assumir, meu amor por você, menina.

A bailarina, ajoelhou-se, e chorou também.

O palhaço ergueu o espinho e perfurou o próprio coração.
Ajoelhado, ele faz um último pedido.

- Nem que do mundo eu me tire, ou pro mundo eu regresse eu peço a todos que riam.
E escreveu com seu próprio sangue seu amor, no chão batido do circo, que dizia:

" Amor eterno, é terno, é ter. Se um dia te feri, aos meus olhos me matei. Desejei não ter te feito, algo como eu te fiz, mas agora tu sorri e eu sozinho, para sempre eu serei. Amo...."

As luzes se apagaram e o violino tocou.

Um comentário:

  1. logo no começo da leitura lembrei de uma poesia. achei aqui na net. segundo consta, acusa que o autor é herique hine. o nome é esse mesmo. boa leitura! ;*



    O Tédio

    Paciente: Venho doutor, fazer-lhe uma consulta.
    A doença que me punge e esteriliza a mocidade e o espírito,
    Resulta de uma chaga que nunca cicatriza.
    Muito embora comum a toda gente, a de que sofro, atroz hipocondria,
    Tanto me torna pensativo e doente, que já não sei o que é paz nem alegria..
    Sendo o mais sábio clínico do mundo, sois também um filósofo notável, do
    Peito humano auscultador profundo, curareis este mal inexorável.
    Que me destrói o organismo fibra-a-fibra
    Que me enevoa o cérebro e o condensa.
    Eu tenho um coração que já não vibra
    Suporto uma cabeça que não pensa.
    Este tédio mortal, tédio agoureiro,
    Que me envenena, que me escurece os dias,
    É como os beijos dado á dinheiro, numa noite de orgias.

    Doutor: O amigo tem razão, padece realmente
    Contudo a infermidade, o morbus que o devora,
    É um produto fatal do século de agora.
    Uma emoção vibrante, um abalo violento, pode cura-lo
    Creio. Apenas num momento. O tédio é uma sombria, uma
    Fatal loucura. É a treva interior, a grande noite escura.
    Onde se esquece tudo. A sorte, a vida amada. O nosso
    Próprio ser e só se lembra o nada.
    ---diga-me. Alguma vez amou ?
    Nunca em seu peito estrugiu das paixões o temporal desfeito ?
    Como as vagas de um mar que se agita e encapela, ao soturno rumor do vento
    E da procela ?

    Paciente: Nunca.

    Doutor: Pois meu caro. Procure a agitação constante.
    Um prazer esquisito, um gozo triunfante.
    Já visitou a Grécia, o Oriente a terra santa ?
    Os sítios onde tudo hoje evoca e decanta, as glorias uma idade imorredoura
    E eterna, que amesquinha e deslumbra a geração moderna ?

    Paciente: Em híbridos festins passei a mocidade. Percorri viajando, o mundo
    E a humanidade, como Judas da lenda.
    E entre as mulheres todas, cujos lábios beijei
    Em bacanais e bodas,
    Mulher nenhuma eu vi sobre a terra tamanha
    Que para mim não fosse uma visão estranha.
    Como parti voltei. Sem achar lenitivo para este mal doutor.
    Que assim me trás cativo.

    Doutor: Frequente o circo, amigo. A figura brejeira do famoso Arlequim,
    Que a esta cidade inteira palmas e aclamações constantemente arranca.
    Talvez lhe restitua a gargalhada franca.

    Paciente: Vejo doutor, que o meu caso é perdido.
    O truão de que falas, o palhaço querido
    Que anda no Coliseu assim tão aclamado, tem um riso
    De morte, um riso mascarado, que encobre a dor sem fim
    Do tédio e do cansaço... sou eu este Palhaço.

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Relato

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