Houve um tempo em que eu tinha duas mãos fortes, elas me ajudavam a trabalhar,
apoiar, segurar. Durante muitos anos, elas viveram em harmonia e solidez. As duas realizavam movimentos sincronizados em busca de melodias, destrinchando os segredos dos sons e palavras.
Até que uma bruxa, e todos os seus desejos malignos, invejaram uma de minhas mãos. A princípio, por inocência, deixei que a bruxa as usasse, as duas, para confeccionar algumas de suas guloseimas.
A bruxa parecia saber cuidar bem de minhas mãos, e por desleixo, uma de minhas mãos sentiu-se mais feliz e melhor tratada pela bruxa. Mas a mão pertencia a mim, e com todas as forças eu lutei para mantê-la, nem que fosse necessário, machucá-la. Muitos me aconselharam e até mesmo minha mão, disse-me: só preciso de dedicação e atenção.
A bruxa já tinha lançado seu feitiço. Eu não consegui fazer com que a mão lembrasse que era minha. A mão tinha encontrado outro corpo, outra dona. A bruxa.
segunda-feira, 29 de março de 2010
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