Vinha sumido há três semanas quase de propósito. Perguntavam se estava tudo bem e estava. De fato estava, mas o mistério que o desapego provoca torna tudo menos simples.
Sim, isso não muda o fato de que as coisas, em geral, não estavam como eu gostaria. Falta-me um pouco de dinheiro para concluir planos breves, enquanto me sobram muitos planos. Também carrego uma dor latejante no joelho e no pescoço. Meus colegas de trabalho parecem sintonizados em uma frequência AM: falam pouco e com muita distorção, deixando claro seu desinteresse em merecer melhores adjetivos. Talvez por isso eu não saiba lidar com a obrigação de ter alguns — mas que se dane.
E, se você quer saber, não, não esperei os convidados irem embora. A catarse veio travando minha voz e fui impelido a correr até o mural de balões coloridos. Com um palitinho de dentes lavei minha alma de criança, espocando um a um como se fossem frases metralhadas de tudo que quis dizer e nunca pude.
O fim é um covarde, dos maiores. Não deixa recado, não pede permissão, não prepara e não me espera.