segunda-feira, 15 de novembro de 2021

Encerramos aqui, pode ser?

Downtown Lights listening...

Sem muitas opções do que pedir e sem muito saco pra passar horas escolhendo o mesmo sanduíche de ontem, deixei o celular de lado e fui até a varanda. Os prédios e casas daqui de cima dão vertigem e parecem insignificantes, mas ali dentro tem um montão de histórias e dramas. Há, nessas residências, quem goste de pipoca doce, Godard, selvageria no sexo, teatro e até mesmo de remédios ansiolíticos. Ficava ali contemplando seus telhados frágeis comparando com os meus. Seus objetivos eram tantos e será que eram como os meus?

Estive diante de soluções e problemas tamanhos, de pessoas incríveis e detestáveis. A fome me deixava assim, observativo, experimentativo, abusivo e severo comigo, verdade seja dita. Alguns dos meus maiores sonhos agora já não faziam tanto sentido, porque uma parte bem minúscula de mim estava pichado feiamente em seu sorriso. Se alguém te olhasse não poderia dizer que havia um monte de drama em suas mãos por causa disso. Quem diria que esses tantos pensamentos e características suas poderiam ser refletidos em como organizar casas, pintar paredes e escolher bibelôs especiais para que a vida de outros tivessem tanto sentido, já que a sua não. Dizem que assim são os artistas, cada um escolheu descrever a arte de acordo com sua própria natureza e muitas coisas são terrivelmente assustadoras. Particularmente sempre tive sono ao tentar entender suas obras, parte por pura preguiça, parte por puro desinteresse, parte por pura descrença. Um terço para cada coisa boba que me fez descreditar nesses tantos aspirantes. Porém deixei 1% significantemente audaz para o benefício de ser surpreendido por um deles. 

Agora, diante de tantos dilemas e uma doença que me assola sem descanso, o ceticismo moral, acendo uma vela com cheirinho de romã e deixo ir toda mazela que essa vista me mostra e tanto amedronta. Talvez amanhã alugue uma bicicleta e saia por ai, fingindo estar na Holanda, acompanhando os canais, descobrindo bares, deixando recados pra você com desconhecidos - "diz pra Ridícula que eu nunca esqueci" - me agarrando a essa imponente vontade de te abraçar no meu passado. Ah! se eu pudesse apenas visitar como espectador e reviver os amores e também as dores, quem sabe tivesse a mesma sensação que tenho ao rever as últimas lembranças que de ti guardei. Principalmente aquela de que poderia ser sido de uma forma melhor, aquele seu beijo que era uma merda, em que sua língua não sabia ficar quieta e como era astronomicamente desconfortável guardar pra mim o quão inútil foi ter desejado tanto para tão pouco.

Encerramos aqui, pode ser?

Relato

Hoje o céu tá um tanto cinza. Fortaleza tem esses dias; é uma forma de lembrar que por aqui temos muita saudade. Fico me perguntando se apro...