quinta-feira, 15 de março de 2012

Desesperança

Reginaldo Rossi - Garçom

No caminho da sua casa, te carregando bêbada, dei conta de uma coisa incrível: cansei.
A surpresa foi tamanha, que aquela sobrancelha assanhada, os olhos charmosamente borrados, as torpes palavras sobre um amoroso sexo, me deixaram enjoado. Tudo bem, como diz, tudo bem.


- Foi culpa minha.
- Não, não foi. Entenda, eu tinha colocado quase tudo à sua disposição, tempo, planos e você vacilou.
- Acontece quando amo demais alguém.
- Como assim?
- Sempre deslizo, desando, a segurança é algo venenoso.
- Não estou entendendo nada.
- Vou desanuviar: Eu te amo, mas sinto falta de querer te fazer me amar.
- Para com isso, é sempre a mesma coisa, cheia de entrelinhas.
- Sabe o momento da conquista, de descobrir que alguém sente algo por você?
- Sim.
- Então, você me deu segurança demais e estamos nessa.
- Pensei que fosse isso que procuram, estabilidade.
- E é, tipo uma balança, de um lado a certeza e do outro a desesperança.
- Do que?
- De que vale e não vale continuar.
- Engraçado.
- O que?
- Você tirou o peso da certeza da balança.
- Pois é, e você o do mistério.


No caminho da minha casa, me carregando sóbrio, dei conta de uma coisa incrível: sinto sua falta. A surpresa foi tamanha, que aquela sobrancelha assanhada, os olhos charmosamente borrados, as torpes palavras sobre um amoroso sexo, me deixaram fraco. Tudo bem, como diz, tudo bem.

sábado, 10 de março de 2012

Eu realmente amei alguém.

Kings of Convenience - Misread


"Bastam alguns amigos e um pouco de frieza pra deixar de lado os mal entendidos. Entre, sinta-se à vontade, a casa é sua e eu também. Só não me deixe pensar que é passageira a sua visita, pois não saberia conduzir, como minha, a sua falta. "


O que eu poderia argumentar, frente àquela jovem sedenta que batia à minha porta às duas da manhã. Tá tarde, acabei de chegar, cansado, não sei o que dar como desculpa, mas vai embora, que essa história de só vir quando precisa, me deixou cético aos relacionamentos. Ah, quer saber, eu não sei dizer não todo tempo, por mais que seja forte essa característica em mim. Estava claro, a sua chegada repentina, esse distanciamento por alguns meses, poucos nos falávamos, até na sua maneira de me dizer que estava aqui, meio imparcial, meio de um jeito que mais precisava dizer do que queria, eu notava que nas entrelinhas havia uma sorte diferente de acontecimentos. Já quis testar a saudade e enfrentei meus mais claros momentos de razão. Sinto sua falta, isso não significa algo pra você? E isso fica estampado em letreiros neon-laranja, quando me perguntam se eu tenho falado contigo.

Sabe quando faz muito tempo que você espera por algo perfeito e isso literalmente acontece? Depois de uns 15 minutos daquele tremor literal do encontro, sorrisos abertos demais, ela conseguiu se segurar e a conversa se conduziu pra me deixar sem conseguir dormir por duas noites, tempo suficiente pra receber uma ligação sua me chamando pra uma bebida e fui. Estava mais calma, sinal que toda aquela minha neurose era infantilidade oprimida, por ter reencontrado minha primeira namorada. Se você tem a chance, não faça isso, não seja um tolo, por que tudo volta e de um jeito mais intenso, mais adulto e mais honesto. Eu costumava não acreditar em primeiro amor, mas aquilo, diante de mim, só podia ser a confirmação cabal dessa condição; eu realmente amei alguém.

E então, como vai, depois desse tempo todo quase não lembrei de você até o ano passado, quando, realmente, tudo deu errado na minha vida. Ah, pouca coisa deu, de fato, errado na minha. Alguns planos errados, na verdade, alguns caminhos errados, mas os planos continuam os mesmos. Família, filhos, o que é bem estranho pra um cara de 25 anos. Eu não acho, pelo contrário, compartilho contigo a visão família, só não sou muito chegada a esse seu apego a essa cidade cinza. Não implica, tá bom? Foi daqui que você saiu e foi aqui que eu te conheci. Seria uma injustiça deixar de dar crédito a esse lugar. Tudo bem, mas sem dramas e sem recordações detalhadas, já fui muito vítima das suas memórias. Sem passado, prometo. O presente tá agradável à você? Sim, bastante. Tirando as questões familiares, posso considerar o melhor amadurecimento, ter passado esse tempo fora, não acha? As vezes, sim, nessa situação agora não. Não!? Não. Não entendi...Assim, entre alguns limites que eu me impus às minhas aventuras, essa seria a minha caça ao tesouro, my last will. Sou novo demais, imaturo demais pra estar vivendo ela agora. Não acredito que o medo tomou conta das suas ações. Claro que não, mas pensei em me preparar tanto pra isso, que agora, aqui com você, a única coisa que me passa à cabeça sem roteiros é te beijar. Isso é impraticável, você sabe que tenho namorado e que o amo demais. Sei sim, e também sei que, por isso, essa aventura seria difícil. Isso não é uma aventura, isso é a vida, somos pessoas e eu jamais cometeria esse erro, não com ele, não com você. Eu quero você pra sempre, sempre quis, me doeu a distância, me dói não falar com você toda hora, estando aqui, então por favor, não me faça deslizar e destruir o que esses muitos anos reconstruíram entre nós. Não farei. Obrigada. Mas...e se agora, você pudesse dizer sem medo o que mais quer, você falaria? Claro, nunca tive problemas com isso. E por que insiste em dizer que não cometeria esse erro? Por que eu não cometeria, mas não significa que eu não queira. E você quer? Muito. E agora?

quinta-feira, 8 de março de 2012

Usado

"Pra que me avisar, se não tem intenção de me ver? Até parece que não me conhece, que não imaginava que eu ia ficar eufórico, desgovernado. Sou imaturo mesmo, mas teria sido bem melhor se eu não soubesse e tudo fosse uma estúpida surpresa."

Esse texto vai ser venenoso pra mim.


Já vínhamos nos falando um pouco, até que surgiu a vontade de acertas as coisas. Sabe como é, chega uma hora na vida que você precisa resolver pendências amorosas. Me chegou com aquela frase "acordei e lembrei que eu queria casar com meu primeiro namorado...". Circunstância perfeita pra se desafogar de um relacionamento estável e beber um pouco da fonte da aventura. Liga pra mim, finjo que te entendo, a gente mente mutuamente, desejamos, prometemos, escolhemos novos recursos de sobrevivência, acreditando que o futuro nos reserva algo melhor juntos, mas agora não, é proibído, insensato, imaturo e fora de hora.
Foram meses cerrados de uma intesidade tão vil, que me deixou seco pela falta de conclusão. Eu devia ter lembrado, aliás, escolhi desconsiderar a parte de que algumas coisas nunca mudam, pra tentar te ver por outro ponto de vista. Não sou eu quem fica no que é seguro, por que preciso de estabilidade, ou você pensa que me interesso por ti na segurança, óbvio que não, senão estaria sendo hipócrita com meus ideais. Os argumentos são: estou perdida, tá tudo bagunçado, preciso me situar, a reclusão me agrada no momento, piso em ovos.
Tem gente que passa a vida inteira descobrindo formas de argumentar contra si mesmo, por favor, se você é assim, suma como já fez uma vez.

Ps.: Não haverá uma próxima vez, manifeste-se e tome uma atitude agora ou eu vou mudar.

Relato

Hoje o céu tá um tanto cinza. Fortaleza tem esses dias; é uma forma de lembrar que por aqui temos muita saudade. Fico me perguntando se apro...